Glitter é coisa de vagabunda? O machismo diz que sim

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Créditos: Arquivo pessoal

Glitter, um produto do universo feminino, caiu nas críticas masculinas para esse carnaval. Perceberam como tem homem definindo o que mulher tem que ser para ser de família ou vagabunda? Mesa de bar era onde mais se via, agora as redes e mídias sociais estão cada vez mais cheias de regradores da conduta feminina.

Se o decote é muito grande, a saia é muito curta ou a roupa muito justa, o rótulo de que a mulher “não presta” é logo disparado. Homens taxando como putas as mulheres que amamentam em locais públicos, que têm relações sexuais no primeiro encontro (e que não tem também), que bebem muito e todas as mais diversas situações. Agora, nem mesmo se fantasiar para o carnaval (tradição entre os homens em vários lugares do Brasil até mesmo se travestirem de mulher) com nada mais, nada menos que uma maquiagem no rosto escapa ao machismo enraizado.

Foi exatamente o que aconteceu com a piauiense Ana Clara Carvalho, ao sair com as amigas para curtir o carnaval. A jovem é estudante de Direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e também é estagiária no Tribunal de Justiça do Estado do Piauí. Ana Clara, pelo que se vê até o momento, nada tem de “vagabunda”, não é mesmo?

Mas, para um grupo de homens que pegaram as fotos publicadas pela estudante e compartilharam entre si, num aplicativo de mensagens, Ana Clara outras duas garotas eram sim, vadias.

“Colei uns cristaizinhos no rosto. Carnaval. Me senti à vontade e com vontade. Daí, umas horas depois, eu recebi uns prints de um grupo de uns meninos. Tinha minha foto, de uma amiga e de outra moça. Algum deles se achou no direito de questionar o porquê daqueles adereços, qual era o sentido daquilo. Ao que um indivíduo respondeu dizendo que era “porque elas são vagabundas”. Isso mesmo. Vagabundas”, comenta a jovem numa publicação que fez em seu perfil na rede social no domingo, 19 de fevereiro.

Indignada, Ana Clara ainda conta que nenhum dos homens que participou da sessão de insultos, rotulando-as de vagabundas por usarem glitter no rosto, teve a consciência de pedir para que os outros as respeitasse. “Vocês pensam que alguém repreendeu? Riram junto”, e comenta que o único momento onde os rapazes pediram desculpas, foi quando um dos rapazes percebeu que uma delas era sua namorada.

“Um dos integrantes, que passou pela conversa despercebido, viu que [uma das garotas] se tratava da namorada dele. E aí reclamou. Foi quando alguns tentaram se justificar, pediram pra relevar, pediram desculpas”.

Veja abaixo a indignação da piauiense na íntegra:

A publicação já rendeu mais de 1500 compartilhamentos e mais de 5 mil reações. As respostas são as mais diversas, mas mantém o mesmo questionamento: até quando os homens terão que ditar o que é certo ou errado para a mulher.

Ana, no final da publicação, ainda dá um recado cheio de empoderamento:

“Diante de tudo o que eu falei, queria informar pra quem aí não tiver entendido que eu não tenho dono, que eu me maquiarei do jeito que eu quiser e que não levo desaforo pra casa. Ah, e que se usar glitter, cristais, o que eu quiser no MEU rosto me torna uma vagabunda, prazer, eu sou a maior delas. AQUI NÃO PASSA!”, declara.