‘Tragédia’? Chacina de Campinas é atentado terrorista de ódio às mulheres

Crédito: Reprodução/Facebook
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O assassinato de 12 pessoas na virada do ano em Campinas, interior de São Paulo, cometido pelo técnico de laboratório Sidnei de Araújo, 46, é um atentado terrorista de alguém que odiava as mulheres, o que ficou provado por uma carta deixada por ele mesmo confessando o planejamento da chacina.

O alvo principal era a ex-mulher de Sidnei, Isamara Filier, 41, e o filho que ambos tinham em comum, João Victor, de apenas oito anos. Mesmo assim, outras 10 pessoas morreram, sendo oito mulheres. A mídia se apressou em chamar de “tragédia”. Por que não damos o verdadeiro nome ao que ocorreu? Um feminicídio convertido em atentado terrorista.

A misoginia contida nas palavras e ações é flagrante, e expressa um conteúdo que estamos cansados de ver em comentários nas redes sociais no nosso dia a dia. A carta revela, além do ódio às mulheres, um amontoado de argumentos rasos e de senso comum que se propagaram pelo Brasil nos últimos anos. Sobre a mensagem deixada pelo assassino, a jornalista Maria Teresa Cruz fez uma análise perfeita aqui.

Chamar de “tragédia”, ou tratar o assassino como “louco” é uma maneira simplista e absolutamente errada, que banaliza o verdadeiro motivo por trás das mortes. É como se qualquer pessoa matasse um grupo de seres humanos baseado apenas em desequilíbrio mental. Houve uma porção de coisas, como pudemos ver na carta, que alimentaram Sidnei no caminho para se tornar um terrorista. A “liberdade de expressão” invocada por quem propaga o ódio na internet acaba sendo uma ferramenta para espalhar ideias que levam a atos terríveis.

Quando alguém deixa uma carta expressando ódio a um “sistema feminista”, chamando a Lei Maria da Penha, que visa proteger as mulheres das agressões de seus companheiros, entre outras questões fundamentais para elas no dia a dia, de “lei vadia da penha”, ou ainda diz que matará pessoas para que outros pais possam “se inspirar e acabar com as famílias das vadias”, que diferença há entre esse assassino e um radical que comete um atentado terrorista suicida por motivos de ódio provocado por questões de religião? Não é ódio do mesmo jeito? Não é um ato buscando apoio entre radicais que pensam como ele mesmo após sua morte da mesma maneira?

A divulgação da carta de Sidnei provocou comentários solidários ao assassino, provando que ele conseguiu exatamente o que queria, ser notícia e receber apoio de gente como ele. A ideia de “inspirar” outras pessoas passa a ser nossa principal inimiga a partir de agora.



Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Editor do Torcedores.com. Já passou pelos portais R7, Abril.com e UOL.