Racismo no futebol: o que podemos aprender com as últimas declarações de Vampeta

Créditos: Zanone Fraissat

Heltton Matheus Cardoso Rodrigues tem 22 anos e para jogar na Copa São Paulo de Futebol Júnior (Copinha), apresentou documentos do primo, Brendon Matheus Araújo Lima dos Santos. O campeonato é sub-20, logo ele não poderia jogar. Quando descoberto, o caso revoltou a torcida, pois o time de Heltton, o Paulista de Jundiaí, que já tinha se classificado para a final, foi eliminado da competição. Vampeta entrou na história propondo uma reflexão e uma oferta para o jogador que são surpreendentes. Ao UOL Esporte, ele disse:

“O jogador está errado na atitude dele, mas não vamos execrar o moleque, porque ele está com o sonho de ser jogador de futebol”.

Generoso da parte do ex-jogador, né? Mas Vampeta vai além e lembra de um detalhe que não é só um detalhe se você é negro.

“Ainda tem o fato de ele ser negro, que já sofre discriminação normalmente, então vou dar uma oportunidade para ele, arrumar um advogado”.

Que fique claro, Vampeta acredita que Heltton deve pagar pelos seus erros. Mas defende que a carreira do jogador não deve ser encerrada por este motivo e diz que dará uma oportunidade para Heltton jogar no time em que é presidente, o Osasco Audax.

Vampeta retoma aquele detalhe importante:

“Quem é de cor sabe, vão sacrificar esse menino e daqui a pouco ele não tem mais chance de jogar em nenhum lugar”, completou.

Quero pedir licença ao Vampeta e colocar o que ele disse em outras palavras:

“Quem é negro sabe que no Brasil só se erra uma vez. Porque não vão dar mais oportunidades para você errar de novo”.

O debate sobre racismo no futebol ganha grandes proporções quando se trata de ofensas diretas como as direcionadas ao goleiro Aranha. Porém, é necessário que ampliemos nossa noção sobre o racismo no esporte e questionemos porque pessoas diferentes recebem tratamentos diferentes. Porque negros são julgados de maneira diferente de brancos?

Arrisco dizer que isso ocorre porque nossa sociedade parte do pressuposto de que negros são bandidos e possuem má índole por natureza. Logo, quando erram comprovam essas crenças racistas. Para quem pensa desse modo não há razão para dar mais uma oportunidade a quem é “mau” por natureza.

O técnico Cristóvão Borges já falou sobre as diferenças no julgamento de erros cometidos por qualquer profissional no meio futebolístico. Quando ele ainda treinava o time do Flamengo, convidou a ESPN para dizer que tinha observado como recebe críticas além do comum, o que acaba se caracterizando como uma perseguição. Na entrevista, ele cita o episódio em que o colunista Renato Maurício Prado fez uma declaração racista. O jornalista disse que o Flamengo poderia ter contratado Oswaldo de Oliveira, que é branco, mas preferiu o “Mourinho do Pelourinho”, se referindo ao Cristóvão e fazendo uma ironia com o nome do consagrado técnico português José Mourinho, hoje no Manchester United, da Inglaterra.

Veja aqui a entrevista completa:

A perseguição feita a Cristóvão apresenta outro mito racista que precisamos romper dentro da sociedade, incluindo os esportes: a crença de que negros só possuem habilidades relacionadas ao corpo. São muitos os jogadores negros, já os técnicos são raros, e sabemos o que ocorre com os poucos negros que ocupam esses espaços. Apenas 15% dos técnicos da primeira divisão são negros. Ao todo são vinte, sendo três negros. Além do Cristóvão Borges, que atualmente é técnico do Vasco, Roger Machado está à frente da equipe do Grêmio e Jair Ventura comanda o Botafogo.

Não restam dúvidas de que ainda precisamos avançar muito. Que a lição de Vampeta ao futebol brasileiro possa ecoar nos campos e becos brasileiros.