Pílula anticoncepcional: uma ameaça à saúde física e mental das mulheres?

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A pílula anticoncepcional é um dos métodos mais indicados pelos ginecologistas. Muitas mulheres dizem ter melhorado sua vida após a utilizarem, mas segundo Vicky Spratt, editora-adjunta do The Debrief, site inglês de comportamento para o público feminino jovem, uma parcela importante daquelas que fazem uso do controle afirma que há um efeito devastador na saúde física e mental de quem a toma. Será mesmo?

Usando sua experiência pessoal — de acordo com ela, semelhante a de várias outras mulheres —, Spratt disse à BBC que começou a usar a pílula anticoncepcional aos 14 anos para regularizar a menstruação. A partir daí, passaria mais de uma década entre uma pílula e outra, que fariam a jovem desenvolver ansiedade, depressão, sérias mudanças de humor e ataques de pânico.

Só bem depois dos 20 anos, já formada na universidade, após vários ginecologistas afirmarem erroneamente que as pílulas anticoncepcionais não provocavam seu quadro e quase perder-se de si mesma ao usar betabloqueadores para tratar os distúrbios psicológicos, ela decidiu suspender o contraceptivo por conta própria. O resultado? Os ataques de pânico cessaram e as crises depressivas, também.

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“Agora, aos 28 anos, não uso mais contracepção hormonal e, com a exceção de leves alterações de humor nas 48 horas antes da minha menstruação, estou livre da ansiedade, depressão e ataques de pânico”, afirma.

De acordo com a professora Helen Stokes-Lampard, presidente do Royal College of GPs (Instituição Acadêmica britânica para Clínicos Gerais), pode sim haver “uma ligação estabelecida entre hormônios e humor, tanto positiva quanto negativa”.

“Mas, para a grande maioria das mulheres, os benefícios de uma contracepção confiável e da regulação do ciclo menstrual superam todos os efeitos colaterais, e muitas mulheres relatam que tomar hormônios realmente impulsiona o humor”, elucida a médica e conclui: “Se uma mulher acredita que sua contracepção pode estar afetando negativamente seu humor, ela deve discutir isso com um profissional de saúde em sua próxima consulta”.

O preço que a pílula anticoncepcional cobra

O The Debrief, site onde Vicky Spratt é editora-adjunta, realizou um levantamento com 1022 leitoras de 18 a 30 anos sobre o método contraceptivo. A pesquisa revelou que a esmagadora maioria, 93% das participantes, já havia tomado ou tomava a pílula anticoncepcional. Desse número, 45% declarou ter experimentado ansiedade e 45% disse sofrer com depressão. 46% assumiu que o medicamento diminuiu o desejo sexual. Mais da metade (58%) tem certeza que a pílula anticoncepcional tem um impacto negativo na própria saúde mental. Apenas 4% afirmou que o efeito é positivo.

A estagiária de enfermagem da Secretaria Estadual De Saúde de Mato Grosso Sul (MS), Letícia Amarilha, tem 20 anos e mora em Campo Grande (MS). Começou a utilizar a pílula anticoncepcional por indicação do ginecologista para diminuir as dores e controlar o ciclo. Mas, relata que precisou trocar de medicamento, pois o primeiro a fazia sentir náuseas e tontura. “O outro era tranquilo. Mas, em outubro de 2015 eu comecei a sangrar e não parava”, lembra.

Amarilha conta que realizou ultrassom e exames laboratoriais solicitados pelo médico, mas ele afirmou que poderia ser de fundo psicológico. Entretanto, o quadro permanecia o mesmo. A jovem decidiu parar de fazer uso do contraceptivo em novembro e assim que suspendeu o uso, os sangramentos cessaram.

“Fiz outra ultrassom e descobri que meu ovário tinha diminuído de tamanho por causa do efeito do anticoncepcional”, revela a jovem, que tentou posteriormente retomar o uso da pílula, mas acabou interrompendo definitivamente quando percebeu que voltou a sangrar.

Elaine Montalvão traz ainda outra realidade bem preocupante. A carioca de 42 anos, formada em Administração, explica que tomou a pílula anticoncepcional por muitos anos, mas como ela mesma definiu, é “a famosa bomba relógio”: “Eu fumo, eu bebo e isso afetou muito quando eu engravidei. O uso do remédio – por incrível que pareça – mascarou a minha gravidez”, explica.

Montalvão engravidou fazendo uso do contraceptivo e acabou desenvolvendo uma trombose venosa profunda na veia femoral do lado esquerdo. “Fiquei vinte dias internada, tomei muito anticoagulante, não pude ter um parto normal por conta disso e até hoje eu não posso mais tomar anticoncepcional, porque quem já teve trombose, por conta da mesma, não pode mais fazer uso [do contraceptivo]”.

Ela ainda fala que a natureza silenciosa da situação foi fundamental para que não percebesse o mal que estava por vir. “Eu fazia o uso normal, tomava a cartela, dava o intervalo, começava outra cartela e eu nunca tive nenhum tipo de problema. Eu comecei a tomar com 17 anos e eu tive trombose aos 30”, conta.

“Sempre enfrentei problemas com o anticoncepcional”, disse a assistente administrativa, Vanessa Pinto, 26 anos, cearense de Fortaleza. “Dores de cabeça, falta de libido, oleosidade [na pele], ganho de peso e até mudanças de humor que ‘ajudaram’ em um término de noivado”, revela.

A engenheira de Belem do Pará, Jéssica Santos, 26 anos, também teve dificuldades com o corpo e alterações hormonais importantes: “Eu tive dois problemas: primeiro engordar bastante, e o segundo foi que passei um período de aproximadamente seis meses sem menstruar”.

Já Cláudia Santos, administradora de 36 anos e residente no Distrito Federal, conta que começou a tomar a contracepção por injeção aos 22 anos. Ela fez esta opção, pois poderia esquecer de tomar o comprimido diariamente, enquanto o método só precisava ser aplicado uma única vez no mês. Mesmo assim, a carga hormonal fez a brasiliense engordar 25 quilos num período de dois anos. “Não consegui emagrecer nem mesmo depois que parei de tomar [a injeção]”, afirma. Após alguns exames, ficou constatado que o anticoncepcional alterou os hormônios de Cláudia. “Já fazem doze anos que parei de tomar, nesse tempo só uso preservativo”, disse a jovem que iniciou uma dieta rígida no início de 2016 e já emagreceu 14 quilos.

Vilão para umas, herói para outras

Mas e os benefícios? É fato que a maioria dos ginecologistas não indicaria o uso do anticoncepcional à toa. As mulheres que constituíram os 4% e que concordaram que apenas efeitos positivos provinham da pílula anticoncepcional, num proporção maior do que 1022 entrevistadas, poderiam representar um percentual superior.

Camila Vayda tem 26 anos, é paulistana e reside em Guarulhos (SP). Ela que está num relacionamento duradouro (cerca de dez anos) começou a usar a pílula anticoncepcional aos 14 para tratar de problemas hormonais. “Eu tinha uma menstruação desregulada, também um cisto pequeno. Então, como solução, o médico me receitou o anticoncepcional, que me fez muito bem”, relembra a educadora e conta que a contracepção abrandou as fortes cólicas e o exacerbado fluxo menstrual.

Camila também revela que fez o tratamento de um cisto maior, que apareceu posteriormente, apenas com o uso da pílula anticoncepcional. “Eu tive um cisto muito grande, quase seis centímetros — caso de cirurgia — graças ao uso do anticoncepcional que o médico receitou, em um mês consegui retirar o cisto sem precisar passar pelo procedimento cirúrgico”, afirma.

A secretária paulistana de 25 anos, Karynne Chicote, reside na Zona Sul de São Paulo e mantém um relacionamento estável há cinco anos. Desde a adolescência usa a pílula anticoncepcional, também por indicação do ginecologista para tratar problemas hormonais. “Eu sentia cólicas muito fortes, as pernas trêmulas e inclusive sofria desmaios”, conta a jovem que está cursando jornalismo.

Diagnosticada aos 15 anos com ovário policístico com hidrocistos, seguiu a orientação médica e começou o tratamento com a pílula para evitar uma cirurgia. Deu certo. Além disso, Karynne garante que toda a parte estética (pele, cabelos e unhas) se beneficiou após o uso. Mais ainda: “A parte psicológica e sentimental, digamos assim, ela [a pílula] ajuda a equilibrar. Não fico estressada, chateada, triste… Nem mesmo na TPM, que é mais branda”, comenta.

Mesmo caso da professora Daniela Castilho, de 40 anos. Também residente em Guarulhos (SP), começou antes da idade adulta — assim como as outras mulheres —, procurando tratar problemas hormonais.

Seu início se deu aos 16 anos e não sentiu nenhum efeito adverso citado e prevenido pelo ginecologista. Apesar de ouvir que poderia ficar impossibilitada de gerar um filho por um grande período depois de parar de usar o remédio, quando interrompeu o uso do contraceptivo para tratar um nódulo no seio — que não tinha relação com o anticoncepcional —, engravidou três meses depois.

Após a gestação arriscou o DIU, porém o corpo rejeitou. Daniela também tentou a injeção, pois preferia cortar de vez a menstruação. Porém, não se adaptou. O ganho de sobrepeso (20 quilos em três meses) fez com que ela parasse de tomar as doses. Só três anos e meio depois de suspender o uso, conseguiu voltar ao peso original e menstruar.

Daniela destaca ainda que, no caso dela, a pílula anticoncepcional só trouxe vantagens. “No meu caso eu sempre vi mais benefícios do que malefícios. Não tive uma dor de cabeça, nenhum coágulo […]. Pra minha pessoa o anticoncepcional fez bem, sempre. Eu não engravidei – só engravidei quando parei de fazer uso”, revela. E compara sua realidade com a de sua filha, dando ênfase ao fato de que há de se encontrar uma pílula anticoncepcional que se adeque ao seu organismo. “em contrapartida minha filha fez uso de um anticoncepcional que, ao invés de regular, desregulou a menstruação dela completamente, ao ponto de passar mal e ir ao hospital. Vamos voltar a ginecologista para ela adequar um outro medicamento para diminuir o fluxo da menstruarão, pois ela [a filha] está com a anemia por conta disso”.

Por que não há uma participação maior da contracepção masculina?

A primeira pílula anticoncepcional feminina chegou em 1960 ao mercado americano. Já estamos em 2017 e ainda não temos uma pílula anticoncepcional masculina ou um método que divida o peso da contracepção com a mulher — além do preservativo —.

Apesar da noção machista recorrente que aplica a responsabilidade da contracepção unilateralmente à mulher, uma pesquisa feita em 2005 com mais de 9000 homens, entre 18 e 50 anos, em nove países, mostrou que mais da metade dos participantes se disponibilizaria em usar o método contraceptivo capaz de barrar a produção de esperma.

O ponto de vista comercial ainda é muito latente, pois há muito recurso e investimento a ser deslocado (e até perdido ao longo prazo) na criação de uma pílula anticoncepcional masculina. Entretanto, pontos como: a certeza de que a contracepção não será definitiva e o ponto de vista em torno da segurança do uso ainda são questões a serem resolvidas. O medicamento teria, por exemplo, que exterminar um número maior de espermatozoides que o homem consegue produzir por dia, sem comprometer o sistema reprodutor masculino.

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“Os testículos masculinos produzem uma quantidade enorme de espermatozoides por dia. Portanto, zerar essa produção implica em um tratamento muito rigoroso e com muitos efeitos colaterais indesejados. Na mulher, o bloqueio hormonal é diferente, mais simples”, disse o doutor Fernando Lorenzini, médico do departamento de reprodução humana da Sociedade Brasileira de Urologia, em entrevista ao jornal ‘Zero Hora’.

Um método alternativo seria o gel chamado de Vasalgel, que tem como previsão para chegar ao mercado dentro de dois anos. O produto seria injetado no canal deferente, o duto que conduz o esperma após ser produzido pelos testículos. Ele bloquearia a passagem do líquido, que seria então reabsorvido pelo corpo. Esse método garantirá cerca de 10 anos de contracepção.

“O homem poderia ir para a relação mais tranquilo e a mulher teria a liberdade de decidir não entupir seu corpo com hormônio”, afirma a psicóloga e sexóloga Priscila Junqueira ao Jornal Extra. Ela diz ainda, é uma faceta do machismos acreditar que a responsabilidade pela contracepção é apenas da mulher: “É muito fácil falarem que não querem ter o filho, mas não usam a camisinha e jogam a responsabilidade todinha na mulher”.

Colaboração: Marcela Vasconcelos