Advogada e ativista sofrem intimidação em delegacia da mulher

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A história começou no dia 24 de janeiro, quando a militante feminista Diana Assunção publicou em sua fanpage do Facebook, um vídeo criticando a ação do prefeito João Doria de apagar os grafites da cidade. Ela realizou o vídeo na avenida 23 de Maio, um dos maiores murais a céu aberto de arte de rua do mundo. Em questão de minutos, começou a receber críticas com relação ao vídeo. Em pouco tempo, os tons das críticas se elevaram e ela passou a ser ofendida pela condição de mulher, com xingamentos machistas do tipo: “falta de macho para botar ela de 4 essa vadia do caralho” – ofensa escrita por uma mulher – e ameaças do tipo: “morra, seu demônio” e “vai comer formiga”.

Na última segunda-feira (30), ela e a advogada Isa Penna foram fazer o registro das ameaças na 1ª Delegacia da Mulher, no centro de São Paulo, e foram novamente vítimas de agressão, segundo a Isa. “A gente demorou duas horas para ser atendida, mas a questão nesse caso nem foi essa. Quando chegou nossa vez, a atendente não queria deixar a gente ver a delegada. E eu fazia questão de fazer o registro da ocorrência na presença da advogada, inclusive porque eu queria pegar orientações com ela e fazer algumas perguntas. Apesar das ameaças que minha companheira sofreu serem de conotação bem machista, citando e ameaçando inclusive de estupro e morte, elas não queriam registrar ali, não queriam abrir o inquérito por ali. Disseram que vão mandar para a delegacia do Rio Pequeno, para o 51 DP”, explicou a advogada. Isa Penna argumentou que o boletim de ocorrência deveria caracterizar violência de gênero e que deveria ser investigado na delegacia especializada e insistiu que queria falar com a delegada.

Nesse momento, o escrivão chefe da delegacia, Alexandre Machado, interviu. “Ele chegou já falando alto, começou a me desrespeitar absolutamente. E olha que estou acostumada com esse ambiente, já trabalhei em CDP, já fui em outras delegacias e a dinâmica de delegacias, de uma forma geral é machista. Mas ele foi absolutamente grosseiro e em determinado momento chegou a me intimidar e disse: ‘É bom mesmo o que?’ e veio pra cima como se fosse fazer algo, me agredir”, relatou Isa. “Foi bem bizarro tanto do ponto de vista pessoal, quanto profissional, já que enquanto advogada estava fazendo uso das minhas prerrogativas, desde solicitar a presença da delegada até fazer valer com que o registro fosse concluído como violência contra a mulher, porque foi o que aconteceu”, concluiu.

Ao saírem do distrito policial, Isa e Diana gravaram um vídeo sobre o ocorrido e postaram nas redes sociais. No vídeo, as duas ponderam que a delegacia da mulher deveria ser um local de acolhimento, já que as mulheres que procuram o local estão evidentemente fragilizadas. A advogada não informou se elas registraram alguma queixa formal na ouvidoria da polícia civil. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo se comprometeu a enviar uma resposta até terça-feira pela manhã.

Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou que foi registrado um boletim de ocorrência, na 1ª DDM, nesta segunda – feira (30), sobre as agressões verbais sofridas pela vítima. O caso foi encaminhado ao distrito policial da área, que ficará responsável pela investigação.

Sobre a confusão na delegacia, a Polícia Civil esclarece que por ser o dia da semana com grande demanda na unidade, teve um tempo de espera maior para o atendimento. Como a advogada exigiu que a vítima fosse atendida rapidamente, houve um desentendimento e o chefe do cartório interveio para acalmá-la, o que não ocorreu. Foi elaborado um boletim de ocorrência de desacato, apenas para registro.

Qualquer queixa quanto à atuação de policiais pode ser comunicada a Corregedoria da Polícia Civil. Vale acrescentar que São Paulo é o Estado pioneiro no aprimoramento de políticas de segurança no combate à violência contra a mulher. A população conta, atualmente, com 133 Delegacias de Defesa da Mulher.