Paridade salarial em 170 anos: como a desigualdade atinge as mulheres

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Estudos sobre desigualdade mostram como a sociedade caminha para uma economia desumana, com extrema concentração de riqueza. Este cenário ameaça especialmente as conquistas e os direitos das mulheres, que têm menos oportunidades de crescimento de renda e ainda carregam grandes responsabilidades perante a família.
De acordo com o relatório anual do Fórum Econômico Mundial de 2016, somente em 170 anos as mulheres recebarão salários equivalentes aos dos homens.
A Oxfam, organização não governamental de combate à desigualdade, divulgou esta semana que a riqueza global total alcançou a soma de US$ 255 trilhões. No entanto, mais da metade dessa riqueza está nas mãos do 1% mais rico da população mundial.
Atualmente, apenas oito pessoas detém uma riqueza equivalente à dos 50% dos mais pobres no mundo. A partir destes dados, procuramos explicar o crescimento da desigualdade na economia e suas consequências para a desigualdade entre gêneros.

Entendendo a desigualdade e seus mecanismos de crescimento
O estudo da Oxfam explica como a fortuna dos mais ricos cresce à margem da riqueza dos governos, ou seja, contribuindo o mínimo possível. Isto é feito por meio do lobby para reduzir tributos, do uso de pessoas jurídicas para fins tributários – empresas tem alíquotas menores do que pessoas físicas – e por fim, do artifício dos paraísos fiscais.
Isso resulta em um empecilho para que os governos aumentem investimentos em saúde, educação e infraestrutura, ou seja, no bem-estar social. De acordo com levantamento da revista Forbes, em 2016, a lista mundial de bilionários conta com 1.810 pessoas. Deste clube, 89% são homens. Ou seja, entre os mais ricos, a representatividade feminina é quase nula.
Como a desigualdade de gênero se revela no mercado de trabalho
Segundo o Banco Mundial, a desigualdade de renda e a desigualdade de gênero podem agir de várias formas. Primeiro, as diferenças salariais entre homens e mulheres contribuem diretamente para a desigualdade de renda.
No Brasil, é sabido que as mulheres trabalham mais e ganham menos. A remuneração da mulher equivale a 76% da que receberia um homem.
Embora os níveis de formação universitária estejam em relativa paridade, as chances no mercado não estão. Homens representam o dobro do número de mulheres em cargos de gerência, e, nos altos cargos, as mulheres ainda atingem aproximadamente 13%.
Os dados que não entram nos índices econômicos
Em seus estudos, a Oxfam traduz os dados que já vimos aqui: “Um número desproporcionalmente mais alto de mulheres ocupa empregos menos seguros e mais mal remunerados, e elas também ficam responsáveis pela maior parte do trabalho não remunerado de cuidar de filhos e de outras pessoas no lar.”
Este dado não é contabilizado no PIB, mas sem ele “nossas economias não funcionariam”. Além disso, “as mulheres são mais propensas do que os homens a investir uma grande proporção do seu rendimento familiar na educação dos seus filhos”.
Levantamento do IPEA mostra que em 40% dos lares brasileiros é a mulher que paga a maior parte das contas, e em 60% é o homem. No entanto, a porcentagem de lares em que o pai é sozinho o responsável pelos filhos é de apenas 2,1%, enquanto 16,3% são lares em que a mulher arca sozinha com a responsabilidade.
Podemos considerar ainda que quando falamos em renda, existe a renda de capital e a renda do trabalho. As taxas de retorno para o capital superam as do crescimento econômico há trinta anos, segundo a Oxfam. Mesmo aí, as mulheres estão em desvantagem.
De acordo com a Bolsa de Valores de São Paulo, apenas 20% dos investidores são mulheres. Não existem dados públicos sobre investimentos em Tesouro Direto, mas um levantamento junto à maior corretora de investimentos do país indica que o percentual não deve variar.
Mas, para uma pessoa investir, devemos lembrar que ela precisa ganhar mais do que gasta em suas necessidades básicas.
Podemos então retornar à questão salarial. A Oxfam alerta que “há provas concretas de que os salários de trabalhadores de baixa remuneração em todo o mundo continuam a ser arrochados”.
Isto ocorre particularmente em cadeias globais de abastecimento. “As mulheres são as mais prejudicadas, já que a probabilidade de trabalharem em empregos precários e de baixa remuneração é maior.”
É possível reverter este quadro?
O FMI revelou que países menos desiguais crescem mais e por mais tempo. Por isso a desigualdade deve ser combatida, a partir de políticas de governo, como tributação progressiva, e também de iniciativas privadas, como pagamento igual em empresas.
A ActionAid calculou que as mulheres que vivem nos países em desenvolvimento poderiam somar US$ 9 trilhões a suas rendas caso seu salário e acesso a trabalho remunerado fossem iguais aos dos homens. Isso resultaria em uma pequena mudança na distribuição de renda e uma grande mudança na vida de várias famílias.