Cartoons com desenhos com homens despudorados vai virar livro pela Editora hoo

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A Editora hoo, especializada em publicações LGBT, lança em fevereiro um livro com desenhos de homens despudorados, Les Funkytoons, do ilustrador, pornógrafo, cartunista e arquiteto Nerone Prandi. Resolvi bater um papo com o charmoso e educado artista sobre o seu universo criativo e falamos sobre transição de carreira, comportamento nas redes sociais e principalmente sobre a polêmica em torno do projeto de Lei nº 6.449/2016, que quer obrigar as operadoras a criarem sistemas que filtre e interrompe automaticamente todos os conteúdos de sexo virtual, prostituição, sites pornográficos.

 Eu fico torcendo pra que a população, de modo geral, e especificamente, a comunidade LGBT, aprenda que tem certos tipos de “loucuras” que NUNCA devem ser naturalizados. Basta lermos os livros de História e veremos claramente onde esse tipo de coisa pode acabar

  • Como foi a transição da arquitetura para os Cartoons?

Bem, não foi uma coisa simples. Por dois motivos básicos.

Primeiro, porque minha vontade de ser cartunista me parecia ser apenas um desejo de criança que tinha ficado “esquecido” no fundo da minha mente. Na verdade, sempre gostei de desenhar, principalmente, personagens, mas, depois da minha adolescência, eu achava que isso seria só um passatempo, um hobby. E fui estudar coisas mais “úteis”. Resolvi fazer Arquitetura e Urbanismo. Na minha cabeça, este era um bom curso. Eu teria um diploma “sério” e ainda continuaria a desenhar, só que com um “propósito nobre”. Para minha total surpresa, se desenhava muito pouco à mão-livre no curso de Arquitetura. E olha que eu sou da época em que a gente tinha de desenhar o projeto à mão, com réguas, nanquim e canetas que viviam entupindo e vazando. Pois bem, segui o curso mesmo sentindo falta do desenho livre, do rabisco. Arquitetura é um assunto maravilhoso e desafiador. E Urbanismo, então… era uma paixão minha (apesar das aulas chatas e pouco produtivas). Eu amo as cidades. Todas elas. Enfim, me formei em 1995.

A partir daí, comecei a trabalhar na área (arquitetura de interiores, pequenas reformas, etc.). Tenho de confessar que nunca me senti realmente feliz com meu trabalho como arquiteto. Dez anos se passaram e depois de muito tentar me enquadrar no perfil do profissional de arquitetura e não conseguir, fui reavaliar minhas escolhas. Era 2005, eu estava então com 35 anos. E um grande problema. Eu estava totalmente insatisfeito profissionalmente. Nesta reavaliação, descobri que, além de não estar satisfeito com a área que eu havia escolhido para trabalhar, eu estava realmente triste com essa escolha. Eu me sentia como se eu tivesse errado feio comigo mesmo.

Resolvi parar de pegar novos projetos e fui terminando os que estavam em andamento. Neste meio tempo, busquei descobrir o que realmente me movia, qual assunto realmente me tocava o coração, o que me fazia feliz. E nesta busca, sempre que eu me perguntava o que fazer, só apareciam na minha mente os meus desenhos de criança, as incontáveis Mônicas e Cebolinhas, Mickeys e Patos Donalds, todas as carinhas e bonequinhos que eu desenhei nos espaços reservados para a solução dos exercícios do meu livro de matemática da 5ª Série (quase repeti o ano por causa disso) e as manhãs inteiras que eu passava na casa da minha avó materna desenhando bonequinhos de palitos nos papéis de embrulho dos pacotes de cigarros vendidos no bar do meu avô (isso lá quando eu tinha 3 ou 4 anos de idade)…

No final de 2005 resolvi deixar a Arquitetura e me dedicar inteiramente à minha nova profissão. Arrumei um curso de quadrinhos e fui estudar para refinar meu traço, minha técnica, estudei arte sequencial, roteiros, e tudo o mais que um quadrinista precisa saber. Em 2006 montei meu primeiro blog, chamado simplesmente Nerone.

Agora vem o segundo motivo que fez essa mudança não ter sido simples. Como sobreviver fazendo quadrinhos no Brasil? Como pagar minhas contas? Com que dinheiro comprar comida? Aí eu me lembrei que, com a Arquitetura, eu até poderia ter um pouquinho de dinheiro sobrando, mas de que me adiantava tê-lo se eu iria ter de gastar essa sobrinha toda em remédios tarja-preta para tentar me sentir melhor?

Dez anos e muito trabalho se passaram e até hoje, quando me lembro desta historia, fico admirado ao ver as voltas que damos para chegarmos de novo em nós mesmos. No fundo, acho que sempre fui cartunista. Só não me dei conta de que essa poderia ser realmente minha vida. E quanto ao dinheiro? Eu ainda procuro por um marido rico. (risos)

  • De onde vem a inspiração? Como surgiu e como vc definiria o Les Funkytoons?

Sinceramente? Para mim, a inspiração vem de qualquer lugar. Pode vir de um bate-papo com amigos, de um passeio pela cidade, de um post ou de uma notícia, de uma música, de um suspiro… Acho que, no fundo, a inspiração vem da observação do mundo, do universo, enfim, da vida. Mas principalmente, no caso dos LesFunkytoons, a inspiração vem de nós, seres humanos, e nossa eterna falta de noção sobre a gente mesmo.

Os LesFunkytoons surgiram quando, depois de ter terminado meu projeto de ilustração erótica chamado FastDrip – Anno II em novembro de 2014, fiquei um período sem projeto fixo. Eu estava esgotado e sem ideia do que fazer a seguir. Então pensei e resolvi que eu precisava dominar finalmente a minha mesa digitalizadora que sempre tinha sido sub-utilizada por eu não saber manejá-la adequadamente com sua caneta. Eu queria desenhar diretamente no computador para evitar o uso do scanner pra digitalizar meus desenhos e assim agilizar a produção dos mesmos. Entrei num curso específico e fui estudar. Mesmo depois de várias aulas, a danada da caneta continuava praticamente indomável para mim. Foi quando o professor disse, numa piada, que mesmo atendendo as aulas e fazendo os exercícios previstos, nós só dominaríamos a técnica a partir do 185º desenho que fizéssemos na “tablet” (mesa digitalizadora). Ele riu. Eu desesperei.

Voltei pra casa com aquilo na cabeça. Mesmo estando um pouco decepcionado com os resultados obtidos nos exercícios do curso, resisti. Desenhei, desenhei, desenhei… qualquer coisa, durante vários dias. Insisti bastante. Os desenhos continuavam capengas. A porcaria da “tablet” e sua caneta tecnológica não facilitavam. Tentei mais. Tentei de novo. Até que… encheu! Fiquei desanimado. Eu nunca iria dar conta daquilo… Aí fiquei puto! Como assim “não vou conseguir”? Por desaforo, catei da caneta e desenhei a primeira coisa que me veio à mente. Desenhei de qualquer jeito, sem pensar, desabafando. Quando eu parei e olhei pro desenho, caí na gargalhada. Tava todo meio torto, meio rabiscado, meio cagado. Eu adorei!!! O desenho mostra um cara de costas sendo chupado por um outro carinha, de joelhos.

O que está sendo chupado puxa o chupador pelas orelhas “guiando” a ação. Voa saliva pra todo lado e os dois caras se movimentam animadamente. Achei o desenho tão despudorado e ao mesmo tempo tão fofo que fiquei louco para postá-lo. Pronto. Nasceram os LesFunkytoons. Em 13 de janeiro de 2015, estreava o blog LesFunkytoons – Indecências & Indignidades. (Ele está completando 2 anos agora.) Como o próprio subtítulo já indica, a ideia por trás dos LesFunkytoons é um  furico (risos). Um furico satisfeito e orgulhoso da sua “indecente” e “indigna” vida de prazeres e desinibições (mais risos). Os boys que desenho nos LesFunkytoons são como nós, só que sem filtro(s). Acima tudo, para eles, vida sem libertinagem (sem insubmissão, sem indisciplina) não é vida.

  • Como foram as aceitações nas publicações nas redes sociais?

Olha, eu costumo dizer que, dentro da possibilidade, eles são bem aceitos. Digo isso porque eu sei que Os LesFunkytoons tem muitos seguidores (brasileiros e também estrangeiros, tanto no site oficial, quanto na página deles no Facebook e também no Instagram). Mas é fato que este é um público restrito ainda. E muito disso vem do fato de os LesFunkytoons tratarem o sexo de maneira desinibida (Sim, estamos no século XXI mas o sexo continua sendo um assunto “controverso”…). E os cartuns, ainda por cima, são viados!!! Cartuns vaiados!!! Já pensou??? (risos) Ou seja, rola uma dificuldade aí também, né? Mas tudo bem, entre gregos e troianos, eu sempre escolho o cavalo. Já estou acostumado. (mais risos)

Agora, tem uma coisa que é pentelha. Tudo vai bem até eu compartilhar, nas redes sociais, algum desenho em que aparece um pintinho, mesmo que bem pequenininho, que logo me denunciam. Sou craque em tomar gancho no Facebook, por exemplo. E até já tive conta deletada no Instagram por causa disso. Então, pra me poupar, acabo fazendo uma versão dos cartuns com tarjas pra poder postá-los mais tranquilamente nas redes sociais. E coloco o link do blog pra quem quiser ver a versão sem tarjas. Eu gostaria muito de não precisar fazer isso, mas parece que há uma dificuldade muito grande em passarmos da 5ª pra 6ª serie, né?

  • Percebe alguma mudança de comportamento do público brasileiro para o público estrangeiro?

Há diferenças sim. No geral, o público brasileiro é mais conservador quando o assunto é sexo, se comparado aos dos países desenvolvidos (e até mesmo aos “em desenvolvimento”). E isso faz diferença no engajamento do leitor visto que os LesFunkytoons são bastante desinibidos. Mas, sinceramente, não posso reclamar. Os cartuns recebem bons comentários nas postagens e eu percebo uma tendência de aumento no alcance dos cartuns. E agora, com o lançamento do livro LESFunkytoons – Indecências e Indignidades agora em fevereiro pela hoo editora, espero que o alcance se expanda mais. Estou bastante confiante.

  • De quem foi a ideia do livro, o que podemos esperar dele e quando será lançado?

Bem, tudo aconteceu de maneira orgânica (desculpe o uso de palavra tão gasta – risos). Não existia um projeto propriamente dito. O que houve foi que, um ano atrás, eu fiquei sabendo que existia uma nova editora voltada para a publicação de obras LGBTs chamada hoo editora. Já de saída, a hoo publicou dois livros. Um de literatura, Nicotina Zero de Alexandre Rabelo, e outro de quadrinhos (!!!), o Torta de Climão de Kris Barz.

Fiquei enlouquecido! Morto de vontade de entrar em contato com a hoo. Mas ao mesmo tempo, sem ter nada organizado no formato livro, nenhum projeto definido, a coisa ficava parecendo muito distante. Na dúvida, continuei acompanhando o trabalho da editora e seus lançamentos. Fiquei esperando por uma oportunidade de conversar com eles. Passados alguns meses, a oportunidade apareceu. A hoo organizou uma conversa/debate entre os autores Alexandre Rabelo e Kris Barz na livraria Blooks. Marquei com o Alexandre, nesta época estávamos trabalhando juntos no espetáculo Anatomia do Fauno, e fui ao debate para vê-lo.

O tema do debate era justamente sobre a dificuldade que os autores LGBTs enfrentam para publicar. No meio da conversa, o Alexandre fez a gentileza de usar o meu trabalho nos meus blogs para ilustrar o que ele estava falando sobre este assunto. E assim, ele acabou virando meu padrinho editorial. Depois que acabou o debate, a Juliana e o Marcio, editores da hoo, quiseram saber mais sobre o meu trabalho. Eles gostaram e tudo foi se encaixando. E o livro sai agora em fevereiro. (ainda não tenho a data fechada mas devo saber em poucos dias).

  • O que devemos nos ater e considerar sobre a proposta do deputado do DEM sobre a Projeto de Lei º 6.449/2016, popularmente conhecida como Pec da masturbação?

Bom, esse assunto é espinhoso. Comecemos pelo fato de que uma proposta dessa natureza em pleno século XXI é, no mínimo, ridícula. A princípio, este parece ser só mais um caso de um deputado inexpressivo querendo ganhar visibilidade com um projeto de lei esdrúxulo. Ok. Já sabemos como funciona. Já vimos isso acontecendo inúmeras vezes. Na verdade, já estamos cansados de ouvir falar em projetos ridículos na política nacional. Então, como de costume, só fazemos alguns deboches e a coisa é esquecida logo em seguida. Só que o tal projeto fica lá, esperando pra ser “apreciado”. Um belo dia… votam e aprovam uma porcaria qualquer. E um projeto desse tipo vira lei. Aí vem gente dizer que “isso não acontece”, que “uma lei assim, tão absurda não passa” e tal e coisa. Mas aí é que a porca torce o rabo, se o projeto está lá, um dia ele deverá ser analisado. E dependendo da ocasião, ele pode vir bem a calhar.

O que me assusta é que, exatamente neste momento, devido ao retrocesso moral encampado pelas religiões cristãs “fundamentalistas” no Brasil, e num país que faz questão de esquecer o conceito de Estado Laico e a própria Constituição, a ocasião pra se aprovar uma lei assim já existe. Qual é o perfil da turma que comanda o país? Essa turma é progressista ou conservadora? Enfim, é um desastre prestes a acontecer. Mas o que chamo de desastre não é a lei em si mas sim o que ela representa.

Alguém ter a cara de pau de aventar a possibilidade de criar um projeto de lei desse tipo, e fazê-lo, e as pessoas acharem que é só uma coisa pitoresca, e não absurda, já é desastre grande demais no meu entender. Juntando esse episódio com outros que tem ocorrido ultimamente, como o da “musa do golpe” que disse que vai fiscalizar os banheiros do Ibirapuera, o prefeito que se fantasia, revivendo o “black face”, pra fazer manchete (E a faz! Não pelo ridículo/preconceito mas como se fosse certo o que ele fez) e sem nos esquecermos da passagem daquele outro deputado pastor “fundamentalista” que ocupou a CDHM e que defende a “cura gay” e a submissão das mulheres e muitos outros fatos/factóides/absurdos políticos que viram apenas deboche, só posso ficar preocupado imaginando o que poderá acontecer conosco, os viados. Eu fico torcendo pra que a população, de modo geral, e especificamente, a comunidade LGBT, aprenda que tem certos tipos de “loucuras” que NUNCA devem ser naturalizados. Basta lermos os livros de História e veremos claramente onde esse tipo de coisa pode acabar.

  • Onde podemos acessar mais da sua arte?

Dá pra acessar meu trabalho por vários lugares na internet.

Site oficial: http://lesfunkytoons.com

Facebook: http://www.facebook.com/LesFUNKYTOONS/

Instagram: @nerone_prandi

Twitter: @NeronePrandi

E, no meu site/portifolio: http://neroneprandi.com (aqui tem links pra todos os meus projetos)