Com atraso de duas décadas, Globo cria Globeleza que respeita a diversidade

Crédito: Reprodução
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A primeira mulher Globeleza, o símbolo da TV Globo para o carnaval – e que tinha a cobertura das festas com o mesmo nome -, teve vinheta criada por Hans Donner em 1993. Era Valéria Valenssa, que ainda hoje é casada com o criador. Eu usei propositalmente a palavra “mulher”, para justapor o que fez a emissora durante anos: chamava a Globeleza de “mulata Globeleza”, já de saída se apropriando da terminologia racista que é chamar o negro de mulato. Na etimologia da palavra, mulata vem de mula e era usada justamente para se referir aos filhos de europeus com negros. A mula, no mundo animal, é resultado do cruzamento da égua com o jumento e não pode gerar descendentes, é estéril.

Para o carnaval 2017, uma novidade: a bailarina Erika Moura, que reina como Globeleza há alguns anos, aparece com muito mais roupa do que a costumeira pintura corporal – até aí não achava qualquer problema – e, aí sim a verdadeira mudança, é ladeada por outros personagens, incluindo homens, e aparece manifestando a diversidade cultural do Brasil, com menções ao nosso rico folclore, como o bumba meu boi e os reisados – a Folia de Reis – além de dançar frevo. Ela samba também, mas com signos bem característicos do nosso carnaval, como a porta-bandeira. Enfim, uma vinheta que em pouco mais de 30 segundos consegue com delicadeza mostrar um pouco da mistura de cores e costumes do nosso país. Ponto para a Rede Globo.

Mas, como dizem os antigos, “devagar com o andor que o santo é de barro”. A mudança de paradigma é importante e deve ser reconhecida e celebrada. Mas não podemos esquecer que no carnaval de 2014, Nayara Justino foi escolhida para ocupar o posto e depois de iniciar as gravações foi demitida sem mais nem menos porque “negra demais para ser Globeleza”. Vou repetir, já que pode ter passado despercebido: negra demais para ser Globeleza. O fato causou transtornos imensuráveis da vida de Nayara, vítima de um racismo absurdo. Aí começa a fazer sentido o “mulata”. A tal mulata que a Globo sempre buscou é até negra, mas é desejável que não seja tão escura, o nariz seja mais fino e, melhor ainda, se tiver umas luzes no cabelo. Ninguém nasce desconstruidão e o legal da história é repensar, alterar rotas, recomeçar. A Globo deu um pequeno passo na direção disso na vinheta do carnaval deste ano. Mas não podemos esquecer o que já fez até para que não haja retrocesso, ainda que os passos sejam bem curtos e lentos ainda.