Affleck: Indústria ignora acusações de assédio do indicado a melhor ator

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Casey Affleck, irmão mais novo de Ben Affleck, é tímido na frente das câmeras e da imprensa. Mas agora o ator está entre um dos mais falados por causa de sua atuação no filme Manchester à Beira Mar. A animação que o segue, porém, falha ao ignorar as duas acusações de assédio sexual em 2010.

Affleck dirigiu o documentário “Eu Ainda Estou Aqui” (I’m Still Here, 2010), sobre a vida do ator Joaquin Phoenix. Durante as filmagens, porém, sua conduta foi pouco profissional e nada respeitosa à algumas mulheres no set. Tanto que ele sofreu dois processos sob alegação de assédio sexual.

Um dos processos foi aberto por Amanda White, produtora do documentário. Já o outro, foi aberto por Magdalena Gorka,também integrante da equipe do filme. White pediu uma indenização de US$ 2 milhões, já Gorka estipulou o valor de US$ 2,5 milhões.

O primeiro processo foi aberto por White, no dia 23 de julho de 2010, sob alegações de que Affleck a submeteu a “avanços sexuais não desejados e não convidados”. De acordo com o processo, ele a ameaçou, dizendo que não pagaria seu salário se ela não passasse a noite em um hotel com ele.

Em sua defesa, Casey Affleck afirmou que as alegações eram “absurdas e sem mérito” e que a mulher já havia saído da produção há mais de um ano.

Já Gorka afirmou que Affleck também se recusou a pagá-la e mesmo a dar crédito à ela após ela se ver obrigada a sair da equipe por causa do assédio que sofreu da parte do ator-diretor.

“Durante o meio da noite, [Gorka] acordou com Affleck deitado na cama junto a ela”, diz o processo. “Ele entrou no quarto enquanto ela dormia e deitou na cama. Quando ela acordou, Affleck estava próximo, trajando apenas uma roupa íntima e uma camiseta. Ele tinha seu braço em torno dela, acariciava suas costas, seu rosto estava muito próximo e seu hálito cheirava a álcool.”

O ator-diretor negou as duas acusações e fez acordos.

Sem boicote

Agora, sete anos após o ocorrido, Casey Affleck é visto como um dos maiores atores do ano de 2017. Ele ganhou um Globo de Ouro de Melhor Ator por Manchester à Beira Mar, que também concorreu a Melhor Filme de Drama.

As indicações ao Oscar saíram hoje, 24 de janeiro, e o filme de Casey Affleck foi um dos mais indicados. Levando indicações a: Melhor Filme, Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Wiliams), Melhor Diretor (Kenneth Lonergan), Melhor Roteiro Original e Melhor Filme.

As acusações de assédio sexual foram completamente ignoradas. E Casey Affleck seguiu o mesmo caminho de Johnny Depp: um ator branco, acusado de ter batido em sua ex-esposa e que não sofreu nenhuma dura consequência na indústria cinematográfica. Após as acusações, Depp foi anunciado como parte da franquia Animais Fantásticos & Onde Habitam.

O mesmo não aconteceu com Nate Parker, diretor negro de Birth Of A Nation. Seu filme estava cotado para concorrer aos grandes prêmios desse ano, como o Globo de Ouro e o Oscar. Mas após alegações de que o diretor estuprou uma mulher em 1999, todas as suas chances – e as de seu filme – caíram por terra.

A atriz Winona Ryder também não teve a mesma sorte. Nos anos 90, ela era uma atriz promissora. Foi indicada a grandes premiações naquela década, inclusive ao Globo de Ouro, em 1991 e 1994 e ao Oscar em 1994 e 1995. Depois de seu episódio de roubo em 2001, porém, Ryder foi apagada, tendo dificuldades em conseguir papéis de destaque e não conseguiu mais nenhuma indicação a premiações grandes. Só em 2016, com a série da Netflix “Stranger Things” é que Ryder voltou a ser relevante para a indústria.

Por que, então, quando se é um ator branco de Hollywood as acusações violência contra a mulher não são levadas à sério? Hollywood mostrou, com os exemplos de Winona Ryder e Nate Parker, que não aceita más condutas. Mas Depp e Casey Affleck conseguiram se livrar do boicote da indústria e do público.

Manchester à Beira Mar é um filme digno de Oscar, mas os casos de assédio sexual de Casey Affleck não podem e nem devem ser ignorados. A violência contra a mulher não pode ser relativizada apenas porque o abusador é um homem branco e influente de Hollywood que participou em um filme aclamado pela crítica.