Carnaval: escola de samba defende o Xingú e enfurece agronegócio

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Uma das grandes atrações dos carnaval no Brasil é o desfile das escolas de samba. Para este ano a Imperatriz Leopoldinense sai em defesa da natureza e presta uma homenagem aos índios do Xingú, levantando uma polêmica antes mesmo das festividades começarem.

O pré-Carnaval carioca já pegando fogo de um lado e os foliões se divertindo, já do outro os donos de terra no norte brasileiro se sentem incomodados e cada vez mais furiosos. O motivo é que para este carnaval, o enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, toca na ferida e dedicará seu desfile às tribos do Xingu, em Mato Grosso, um parque indígena protegido desde 1961.

Mesmo com a proibição legal, o entorno do parque não para de ser desmatado ilegalmente. O uso dos agrotóxicos e a continuação da obra da usina hidrelétrica de Belo Monte, construída no rio de mesmo nome, no Pará não param e depredam cada vez mais o bioma.

A Imperatriz, ousadamente, dedicou a letra do samba-enredo à natureza e às tribos, e critica abertamente o homem branco que ameaça sua sobrevivência.

“Jardim sagrado, o caraíba [referência ao homem branco] descobriu. / Sangra o coração do meu Brasil,/ o belo monstro [a hidrelétrica] rouba as terras dos seus filhos,/ devora as matas e seca os rios,/ tanta riqueza que a cobiça destruiu!”, expõe a letra. A escola levará para a passarela, uma ala fantasiada de borrifadores de pesticida.

Quando o sama-enredo caiu no colo dos poderosos representantes do agronegócio, uma bomba explodiu. Todos eles vestiram a carapuça do caraíba, e abertamente se nomearam como “os salvadores de um Brasil em crise”.

Várias cartas públicas foram divulgadas rejeitando a letra da escola de samba. Associações de pecuaristas, plantadores de cana e até de engenheiros agrônomos repudiaram a ideia da Imperatriz Leopoldinense.

“A abordagem generalista proposta pela Imperatriz Leopoldinense sobre o produtor rural, sem separar o joio do trigo, é incorreta, injusta e inadequada, com a tendência tipicamente alarmista que é característica da linha de pensamento pseudoambientalista”, atacaram os engenheiros agrônomos em uma carta aberta.

“O produtor rural brasileiro deveria ser reverenciado por estar salvando o país da bancarrota há décadas, ao representar, por sua competência, 22% do PIB e gerar 37% dos empregos do país”, magoados com as referências, eles gostariam de serem lembrados como salvadores do Brasil.

Várias outras notas de protesto dos senhores do mundo rural foram publicadas, mas a imensa maioria não foi tão comedida na crítica ao tema escolhido pela escola de samba para este carnaval.

“A polêmica deixou claro um enorme preconceito e racismo contra os índios e contra a escola”, lamenta o carnavalesco da Imperatriz, Cahê Rodrigues, afirmando que nem ele ou os responsáveis pela escola se dão mais ao trabalho de ler os insultos que recebem, todos os dias, desde que o enredo foi divulgado.

“Nossa crítica se baseia no uso indevido de pesticidas que poluem rios, matam peixes e causam danos muito sérios na vida do ser humano, assim como outras agressões à natureza que levam os índios ao desespero. A escola nunca pretendeu ofender o agronegócio, foram eles que se sentiram aludidos”.

Lógico que quando a polêmica chegou ao Congresso Nacional, a bancada ruralista, propôs a criação de uma comissão temática para discutir o assunto.

O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), acredita que deva-se convocar integrantes da escola e investigar suas fontes de financiamento.

Caiado acredita que a escola esteja atacando o setor em prol da difamação daquilo que deveria ser enaltecido. A direção da escola afirma que conta apenas com verbas de incentivo da Prefeitura do Rio e da Liga das Escolas de Samba, além dos direitos de imagem pagos pela TV Globo.

A Imperatriz na contra-mão das escolas de samba

O historiador Luiz Antônio Simas explica que as escolas de samba sempre tiveram que negociar com seus patrocinadores a sua permanência nos desfiles de carnaval. Principalmente depois dos anos 90, pois deixou de ser obrigatório que os enredos versassem sobre assuntos da cultura nacional. Daí as escolas começaram a vender seus desfiles

“As escolas sempre se caracterizaram por seu jogo de cintura e seu papel negociador para sobreviver. Num ano faziam um desfile crítico, mas isso não significava que no ano seguinte não pudessem homenagear quem tinha sido criticado anteriormente. Mas foi a partir daquela década que a visão empresarial se tornou muito mais presente”, explica.

O historiador ainda fala que o que era vendido para o público tinha maior interesse turístico para mascarar os problemas sociais: “Vendiam-nos a cidades com interesse turístico, que viam nos enredos uma excelente forma de se divulgar, mas também a companhias aéreas e até a empresas de laticínios. Transformaram-se em instrumentos de propaganda de massa, chapa branca”, descreve Simas, coautor do livro Dicionário da História do Samba.

De acordo com Luiz, há mais de uma década os amantes do carnaval no Brasil lamentam a ausência de crítica social nos desfiles da Sapucaí. Não há mais o discurso das escolas e a crítica a políticos e igrejas, a denúncia dos preconceitos, injustiças e desigualdade social que marcam o país.

“A crise criou agora uma situação em que os patrocínios começaram a cair, e as escolas voltaram a fazer enredos autorais, propostos pelo carnavalesco, e não por uma empresa. O que tampouco impede que no ano que vem a Imperatriz Leopoldinense faça um enredo a favor do agronegócio. Sempre se procurou o equilíbrio”, elucida.

Cahê Rodrigues relembra que se o agronegócio está se retorcendo com o samba-enredo, é porque a influência e o papel dos desfiles ainda tem uma importância latente na cultura nacional.

“O mundo rural despertou um gigante adormecido. Com suas críticas eles revelaram o poder das escolas de aproveitar a festa para levantar bandeiras e tocar em assuntos polêmicos”.

Com informações do El País