O impacto do feminismo nas redes sociais

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Nunca a palavra feminismo foi tão falada e divulgada como nos últimos anos. Basta lembrar novembro do ano passado, quando a Primavera das Mulheres explodiu em luta e empoderamento, levando milhares de mulheres às ruas de todo o país. Empunhando cartazes e faixas, feministas mais velhas e jovens, que estavam na rua pela primeira vez, lutavam contra o Projeto de Lei 5069, do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que modifica a Lei de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual (Lei 12.845/13). Em tempos sombrios, feministas se unem contra a bancada fundamentalista do congresso nacional e reivindicam direitos e espaços dentro de um sistema patriarcal.

E não apenas contra a bancada evangélica as mulheres vêm se unindo: em maio desse ano, o caso da menina de 16 anos estuprada por 33 homens em uma comunidade no Rio de Janeiro chocou o país e a opinião pública. Após a veiculação de um vídeo onde a adolescente aparecia machucada e desacordada, mulheres foram novamente para as ruas protestar contra esse tipo de violência. Em 24 horas após a exposição do vídeo, várias manifestações aconteceram nas principais capitais e cidades. E na esfera digital, a tag #EstuproNuncaMais ficou por dois dias como o assunto mais falado nas redes.

Em março, estudantes da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ) criaram o movimento Me Avise Quando Chegar por conta dos inúmeros casos de estupros e assédios que estavam ocorrendo no campus há quase três décadas. Só no início desse ano, três jovens foram estupradas em Seropédica, um campus de aproximadamente 3.024 hectares, rodeado de natureza e considerado um dos maiores centros universitários da América Latina. Com as palavras de ordem “Mobiliza, o corpo é nosso, é nossa escolha. É pela vida das mulheres”, as universitárias tomaram o campus exigindo providências imediatas da reitoria.

As redes sociais cumprem um papel crucial nesse momento de levante das mulheres. É através dela que se organizam, debatem, articulam e planejam ações como a campanha #chegadefiufiu, criada em 2013 pelo Think Olga – um portal feminista desenvolvido pela jornalista Juliana de Faria. O objetivo da campanha é coibir o assédio sexual nos espaços públicos. Após o compartilhamento de histórias de diversas mulheres, a pesquisa realizada pelo coletivo pontuou que 98% das 8 mil mulheres entrevistadas já sofreu algum tipo de assédio. “Todos os dias, mulheres são obrigadas a lidar com comentários de teor obsceno, olhares, intimidações, toques indesejados e importunações de teor sexual”, diz a campanha.

Ainda dentro das esferas virtuais, em 2014, em protesto a pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que mostrava que 65% dos brasileiros concordavam com a afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”, a jornalista Nana Queiroz idealizou o protesto com a hastag #eunaomerecoserestuprada, onde mulheres de várias regiões do pais postavam fotografias com as palavras de ordem pintadas no corpo ou em cartazes afirmando categoricamente que mulher nenhuma merece esse tipo de violência. O alcance da campanha foi tão grande que o próprio Ipea revisou a pesquisa e uma semana depois da polêmica, publicou uma errata onde, na verdade, 70% da população se dizia contra o estupro, independente de como a mulher estivesse vestida.

Ano passado, mais uma vez a polêmica ressurgiu com a campanha #Meuprimeiroassedio – mulheres cheias de coragem narraram casos comoventes e revoltantes de assédios, muitos ainda na primeira infância por parte do pai, padrasto, tio, amigo da família, vizinho. Como relatou a estudante de publicidade Juliana Moraes em seu perfil no facebook, “Meu primeiro assedio aconteceu quando eu tinha nove anos e foi um tio meu que me assediou. Ele queria que eu deitasse em cima dele depois de eu tomar banho. Eu me neguei e ele disse que iria contar para minha mãe que eu pedi para fazer aquilo com ele”.

Anterior à campanha meu primeiro assédio, houve a #Meuamigosecreto. Em alusão à brincadeira natalina, mulheres desabafaram acerca das opressões sofridas por conta do gênero através de textos diretos e sem rodeios. “#MeuAmigoSecreto diz que aborto é assassinato, mas pediu pra namorada abortar quando ela engravidou”, publicou o coletivo feminista Não Me Kahlo no Twitter, no dia 23 de novembro. O manifesto viralizou nas redes sociais e acabou virando o livro #MeuAmigoSecreto: Feminismo Além das Redes. “Acreditamos que sair do campo virtual e migrar para os livros é uma ampliação dos campos de discussão sobre esses temas abordados nas hashtags. É uma oportunidade de dar continuidade e promover a permanência desses assuntos”, afirma o coletivo, formado por Bruna de Lara, Bruna Leão, Gabriela Moura, Paola Barioni e Thaysa Malaquias, de diferentes regiões do país.

Criada por Alessandra Orofino, Ana Carolina Evangelista, Antonia Pellegrino e Manoela Miklos, a campanha #agoraequesaoelas surgiu no final de 2015, onde por uma semana mulheres ocuparam os espaços masculinos de fala na mídia.

A ideia inicial do projeto era de homens convidando mulheres para escrever no seu lugar e se colocarem no lugar do ouvinte, dando voz e vez a uma mulher, reconhecendo a urgência da luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino nesta luta. Vários jornalistas, escritores, blogueiros e intelectuais cederam suas colunas em diversos veículos de comunicação para que mulheres pudessem escrever/falar sobre as opressões femininas cotidianas. A campanha segue com uma coluna fixa no jornal Folha de São Paulo, onde semanalmente uma convidada explana acerca de algum tema ligado ao feminismo.

Nesse boom do feminismo midiático, a advogada Anna Haddad, a assessora de projetos Giovana Camargo e a jornalista Carol Patrocínio criaram a plataforma Comum.vc – uma comunidade exclusivamente de mulheres, onde se produz conteúdos, fóruns e encontros presenciais. A ideia surgiu da necessidade de criar um ambiente seguro e exclusivo para mulheres. Para Carol, é importante as mulheres ocuparem todos os espaços cujo acesso um dia foi negado. “Sou dessas que qualquer brechinha já enfia a cara e sai falando de feminismo e temas que a gente precisa falar e ninguém quer. É importante atingir o máximo de pessoas possível”, afirma.

De acordo com Carol, muitas marcas já se apropriaram do movimento e outras ainda o vão, o que a jornalista não julga como negativo, e acrescenta “Elas podiam vender de milhares de maneiras, se preferem vender dando espaço pra gente falar do que realmente importa, vamos lá”.

Segundo Djamila Ribeiro, feminista negra, pesquisadora na área de Filosofia Política e secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, as mídias sociais são muito importantes, pois ampliam o discurso e alcançam as pessoas com a facilidade que de outro modo não seria possível. Por meio de blogs, sites e canais no YouTube, muitas jovens passaram a ter acesso às discussões feministas e, a partir disso, se aprofundarem no tema e começarem a militar.

“A mídia hegemônica, de certo modo, ainda nos ignora. Mas muitas denúncias que surgem pelas redes sociais ganham espaço e, às vezes, até pautam a mídia hegemônica. É um espaço de militância muito importante quando bem utilizado e com estratégia. Em relação ao feminismo negro, foi um espaço onde fomos capazes de existir, de falar a partir das nossas narrativas e visões. Passamos a disputar narrativas. de um modo mais amplo”, completa Djamila.